sábado, 16 de abril de 2011

Eu na Faria Lima

Faz pouco mais de 4 anos que utilizo a bike como meio de transporte há 2 anos vendi meu carro por acreditar que a mudança deveria vir de mim e não apenas das minhas exigências.

Isso foi um tanto bizarro para alguns amigos e familiares, na empresa então rolou um “como assim????” e até hoje quando converso com alguns sinto um pequeno ar de “pena” quando falo que não tenho carro.

Em um breve momento ainda tentava justificar e ficava horas falando e falando “olha eu tenho dinheiro sim para comprar um carro, só não quero...” mas depois de perceber que mesmo assim a dúvida pairava cansei de me justificar e entrei na fase do “aceite-me como eu sou!”

Nesses 4 anos que literalmente mudaram a minha vida em todos os sentidos passei por diversas emoções no trânsito, fui madrinha de um casamento em que fui de bike, fui surpreendida por motoristas que me apoiaram e outros que me abominaram, perdi paqueras por me acharem “pobre” e outros por me acharem “comunista”, vivenciei 2 situações de tentativa de “passada de mão na bunda” uma lá no começo e outra há poucos meses, levei 1 milhão de fechadas e também 2 milhões de jóias e aplausos, mas nunca, nunca mesmo tinha sido agredida como na última quarta-feira dia 13 de Abril de 2011.

Trabalho em Alphaville há quase 7 anos e por ser um caminho emocionante d+ opto em ir trabalhar de busão, mas como responsável técnica do laboratório onde trabalho, devo representar minha empresa em diversas reuniões e acontecimentos que normalmente ocorrem em SP, e para esses vou sempre de bicicleta, pois ainda acredito ser o melhor meio de locomoção nessa cidade de transito caótico.

Quarta-feira fui a uma dessas reuniões, sai de casa por volta das 7hs da manhã sentido Vila Olímpia, peguei a Avenida Faria Lima que pelo horário estava com o transito livre, não gosto e por isso não ando na faixa preferencial ou exclusiva para ônibus, respeito muito mais os ônibus pois sei que dentro dele existem pelo menos umas 20 pessoas que também estão indo trabalhar, então se for para atrapalhar o transito de alguém prefiro atrapalhar o transito de um carro que normalmente só carrega 1 pessoa a um ônibus com 20.

Assim, estava na 2ª faixa da direita, (a Faria lima possui 4 faixas de circulação para cada sentido, não é uma via rápida pois tem muitos semáforos e normalmente muito transito também) como de costume estava ocupando praticamente a faixa toda, para justamente ter espaço suficiente de me re-estabelecer no caso de uma fechada, pedalava a uma velocidade ok +/- uns 25km/h como de costume, de repente do nada noto que um ônibus que estava na faixa preferencial (ou seja, a da direita) sai sem motivo nenhum de sua faixa e se posiciona atrás de mim, da uma acelerada (para assustar) invade a 3ª faixa e ao me ultrapassar me fecha propositalmente me lançando a direita, nessa fechada o ônibus acerta meu braço esquerdo e por uma somatória de fatores positivos não caí.

Foto: Polly - Foi +/- isso que aconteceu comigo, só que eu estava mais ao centro da 2ª faixa e a faixa do ônibus também estava vazia como nessa foto

(Estava clipada o que me proporciona um controle maior da bike, pedalo há muito tempo na cidade e já tenho certa “direção defensiva” embutida em mim, tenho e pedalo a mesma bike há quase 3 anos ou seja conheço muito bem seus jogos e macetes, sem contar também que tenho um anjo-da-guarda porreta!)

Essa batida me presenteou um roxo e literalmente uma dor-de-cotovelo, na hora do ocorrido me senti tão agredida e lesada que tudo na minha cabeça congelou, não consegui pensar e muito menos fazer nada, tudo o que eu sei que deveria ser feito de repente sumiu da minha cabeça e eu entrei em choque, continuei em minha pedalada e um pouco mais a frente vi o ônibus novamente, pensei em acelerar para alcançá-lo mas na hora sabia que resultaria uma discussão que só iria me deixar mais aborrecida, levantei o braço na tentativa frustrada de chamar o motorista que obviamente me ignorou, mas essa aproximação me permitiu conseguir visualizar um mínimo de dados do ônibus:

Viação Santa Brígida, ônibus n° 11062 Linha 958P – Itaim

Era quase 07:30hs da manhã um pouco antes do Shopping Iguatemi, cheguei à reunião arrasada, frustrada, com medo e triste, muito triste por sentir na pele que mesmo com um aumento significativo de ciclistas ainda falta muito a se fazer, que ainda somos tratados como obstáculos no trânsito e não como uma opção.

Na noite de quarta-feira por volta das 20:30hs saí da reunião e assumo estava receosa de voltar pedalando pra casa principalmente pela Faria Lima, mas quando cruzei a avenida, vi que a mesma era um grande estacionamento devido ao trânsito então volte por ela, por raiva do que havia me ocorrido pela manhã voltei pelo corredor dando “Boa Noite” a todos os motoristas de ônibus que ultrapassava.

Nessa mesma noite um fio de esperança surgiu, em farol parei ao lado de ônibus que após o meu “boa noite” o motorista puxou papo e trocamos 6 dúzia de falas simpáticas:

- Boa noite!

- Oi Boa noite, de onde você vem?

- Do trabalho!

- Nossa que legal você sempre vai trabalhar de bicicleta?

...

Sei que o ocorrido parece ser uma regra, mas tenho certeza dentro de mim que não é, é apenas uma exceção, não são todos os motoristas que são do mal, mas infelizmente temos poucos que são e estes já são suficientes para ferrar a vida de quem pedala por São Paulo.

Toda essa história provocou 5 medidas burocráticas:

1ª Reclamação ao site da SPTrans sob o protocolo nº W67603

2ª Reclamação ao site da Viação Santa Brígida sob o protocolo n° SUG819

3ª Cadastro ao site de pesquisas sobre o assunto: Buzinadas

4ª B.O. registrado na 14ª Delegacia de Polícia Civil (Pinheiros) sob o nº 2690/2011

5ª Exame de Corpo de Delito no IML do HC

Toda essa parte burocrática ainda está em "análise". POsto algo assim que tiver alguma resposta.

Na Delegacia fui super bem atendida, estava um pouco receosa pois fui sozinha e o ambiente “delegacia” não é assim muito agradável, o escrivão também era ciclista mas ficou com duvida sobre qual a natureza deveria enquadrar minha ocorrência, no mesmo momento questionou o delegado de plantão que no mesmo instante afirmou:

- Lei 9503/97 Código de Transito Brasileiro Artigo 303 – Lesão corporal culposa na direção de veiculo automotor (consumado)...a bicicleta é um meio de transporte previsto no CTB e ela esta correta em circular na via na direção do transito. Faça sim o B.O.

Agora tenho 6 meses para entrar com uma representação caso queira que o motorista seja investigado criminalmente ou entrar com um processo civil no juizado de pequenas causas para solicitar indenização por danos devido ao acidente.

Ainda na sei o que vou fazer, mas farei alguma coisas pois de verdade quero que o motorista seja punido, mesmo que seja apenas uma bela bronca! (Vou esperar a resposta da Viação antes de qualquer medida maior)

Gostaria muito de agradecer a todos os meus amigos que me apóiam e me deram total atenção após o ocorrido, a todas as palavras de força e experiências que foram compartilhadas.

Gostaria também de agradecer meus pais, que com certeza são de outro planeta, e principalmente após tudo isso estão me dando a maior força para continuar pedalando por São Paulo e correr atrás da punição do motorista, foi minha mãe inclusive quem me motivou a correr atrás de todo esse lance burocrático que dá uma preguiça ENORME!

A todos digo que estou bem...foi só um roxo mesmo, depois de tudo o que aconteceu não pedalei mais, por medo mesmo, mas hoje pedalo mesmo que seja apenas uma volta no quarteirão para espantar o medo. Não vou desistir da minha escolha!

Pedalar pra mim é muito mais que uma opção é paixão mesmo!